terça-feira, 4 de setembro de 2018

Suicídio: debate traz questões religiosas e científicas

Suicídio: debate traz questões religiosas e científicas

4665

Suicídio: debate traz questões religiosas e científicas

“Suicídio: Por que pastores estão tirando sua vida? ”. Especialistas que participaram do primeiro Comunhão: Debate foram unânimes em apontar que todo líder religioso precisa de apoio
O ano de 2017 ficou marcado pelo assustador aumento de casos de suicídio entre pastores e líderes religiosos. Só no mês de dezembro, se tornaram públicos 26 casos envolvendo pastores. Fato que levou nos levou a escolher o tema para o primeiro ‘Comunhão: Debate’.
Pesquisa do Instituto norte-americano LifeWay realizada com 1500 pastores e publicada em setembro de 2017 aponta que 85% dos entrevistados consideraram que suas igrejas cuidam bem deles. No entanto, 69% deles declarou que têm poucas pessoas em quem podem confiar. Além disso, 59% consideram que as funções na igreja limitam o tempo com a família e 49% que se sentem em um aquário.
Mediador e debatedores do 1° Comunhão: Debate
Conteúdo Publicitário
Neste contexto, o mediador do debate e colunista da Comunhão, pastor Ernesto Conti, conduziu a primeira edição do Comunhão: Debate trazendo à tona diversos questionamentos: “O que está acontecendo?  Por que os pastores têm uma tendência à solidão e a fazer tudo sozinhos? Nossas igrejas estão colocando seus líderes na posição de “super-homem”, capazes de suportar tudo. Por isso eles tentam se manter sempre fortes e sofrem em silêncio?
Os debatedores pastores David Hoffman, Gedimar de Araújo, Ulisses Moreira Santos e Wanderley Pereira da Rosa foram unânimes em apontar que a perda da individualidade e o excesso de cobrança pela perfeição estão entre os principais fatores que têm levado tantos pastores e líderes religiosos a desejar acabar com o sofrimento, por meio do suicídio.
O Debate
Pr. Gedimar de Araújo
Os pastores têm sido bem cuidados?
Em 2009, fizemos uma consulta onde tínhamos líderes de diversas denominações, e perguntamos porque pastor não aceita ser cuidado, nem pastoreado. Um motivo foi a falta de tempo. É a tirania do urgente, tem mais coisas para fazer do que tempo. E a gente vai se despersonalizando e virando um objeto para as pessoas usarem. Outro motivo foi que pastor não confia na classe pastoral, no outro pastor. Olha o outro pastor como um rival. ‘Se eu não for bom suficiente, ele toma o que eu tenho’. Eu preciso ter alguém que consiga receber o que eu tenho de carga negativa. E pastor não tem isso. Pastor não vai ao médico, não cuida da saúde, não vai ao psicólogo, não cuida da sua alma”, esclarece o pastor Gedimar.
“Quando olho para os exemplos bíblicos, fico feliz de perceber que Deus nos mostra que somos mesmo falhos. A Bíblia não escondeu os fracassos humanos. Em 2007, mesmo servindo a Deus, amando a Deus, havia coisas que minha alma não conseguia lidar. Eu achava que pastor não pode ser deprimido, que crente não pode passar por essas coisas, até eu passar por um inverno na alma. Contei com a ajuda de um grupo de líderes e hoje sou muito mais humano, melhor”, declarou Gedimar.
Pr. David Hoffman
As circunstâncias da vida podem levar um homem vocacionado por Deus a esquecer de tudo e os levarem a tirar a própria vida?
“O aspecto principal talvez esteja nesta questão: esquecer que somos homens. E nós não podemos nos afastar disso. Elias é um bom exemplo na bíblia, um homem como nós, sujeito às mesmas paixões e fragilidades. Somos seres humanos com fraquezas. Isso é algo com que precisamos lidar todos os dias. Não somos completos. Não somos perfeitos. No Éden houve uma separação. Sempre iremos errar. Entender isso é fundamental. “Está tudo bem que não dei conta de tudo”, “está tudo bem que errei”. A Bíblia diz que é bom que não pequemos, mas se pecarmos, temos um advogado. Os próprios pastores incentivam essa busca pela perfeição, mas só seremos plenos no céu”, apontou o pastor David Hoffman.
Existe alguma forma de achar o limite do homem entre querer ou desistir de viver? Onde entra a fé nesse contexto?
Dr. Ulisses Moreira Santos
O pastor Ulysses Moreira foi enfático ao defender a necessidade das famílias cuidarem da formação da criança em seus sete primeiros anos de vida, a fim de atender aos sete fundamentos da sabedoria, como descrito em Capítulo 2 de Provérbios. Ele insistiu no argumento contando sua própria história. “Passei muitos anos pregando por esse Brasil afora e descobri que tinha uma ideia de fé, mas não vivenciava essa fé em sua integridade. Um dia questionei: Senhor, me responda, por que amo a Ti, vivo em tua Palavra, mas ainda tenho falhas? E acordei no meio da madrugada gritando: Jesus é verdadeiro, Jesus é verdadeiro. A partir daí tudo mudou”, descreveu o pastor Ullysses. “Se o indivíduo receber essa formação na infância, nunca vai cair numa depressão, nunca vai recorrer ao suicídio”, conclui o médico psiquiatra.
Dr. Wanderley Pereira da Rosa
Nossas igrejas estão cobrando das lideranças uma posição de super-heróis. Criamos um estereótipo que precisam ser sempre fortes?
“Há uma suposição de que se você é separado por Deus, está protegido. Mas a experiência de Jó mostra isso. Jesus afirma que estamos sujeitos a aflições. A ideia de que, por sermos cristãos, estamos isentos de sermos assaltados, de passarmos por alguma tragédia, é uma ideia muito danosa”, ressaltou Wanderley.
“O peso que a igreja exige do pastor é que a sua família seja perfeita. A esposa deve ser perfeita, com voz mansa, passiva, que reja o coral da igreja, os filhos devem ser perfeitos e envolvidos no ministério. A realidade é que muitos filhos de pastores não toleram a igreja devido à pressão insuportável exercida sobre eles. Isso vem da cultura católica, onde lá é exigida a castidade do padre”, aponta.

Nenhum comentário: