quinta-feira, 23 de abril de 2020

O Boato como ferramenta de poder


Rafael Jácome

Compre no boato. Venda no fato.Muitas vezes nos perguntamos de onde surgiram certas conversas (falatórios) nos nossos ambientes de trabalho, vizinhos e demais lugares que frequentamos, sempre atentos ao agir “falando da vida dos outros”. Pois bem, estes tipos de conversas são símbolos marcantes nos meios sociais, comumente denominados de boatos.

O poder de um boato!*** | TolunaHá a noção que o boato é inicialmente uma conversa privada e sobre algo privado, mas, que eventualmente se tornará pública – o que ocorrerá uma disseminação, que é sua característica. Nos diversos grupos sociais, independentemente de cultura, raça, nível de escolaridade, ricos ou pobres e urbanos e rurais, sua perpetuação ocorre na segregação entres as pessoas. A sua manifestação é comum, seja nos múrmuros e cochichos, seja em alta voz para ser mais impactante. Por trás de uma fofoca, tem sempre um bom fofoqueiro – mesmo um iniciante ou o profissional, mas com uma língua voraz para segredar pessoas. O boato é na sua essência privado/público, o que o torna em um fenômeno social dicotômico, mas por sua natureza positiva (boato elogioso) ou negativa (boato depreciativo) lhe torna bidimensional a nível de conteúdo, consequências e funções. 
O que condiciona o aparecimento e a circulação de boatos? | IBPADNa Bíblia, no Novo e Velho Testamento, o boato está ligado a heresias e inverdades, portanto, socialmente reprovados. Mas, na história das religiões – no período da Inquisição – as denúncias (baseadas nos boatos) eram utilizadas para condenar os opositores. Fenômeno ainda encontrado em regimes repressivos nos tempos atuais, onde a denúncia do boato serve para excluir do grupo àquele de comportamento desviante. Neste caso o boato funciona como um controle social dentro das diversas esferas grupais: ele agrupa os membros (coesão) e persegue os que não seguem as normas. O boato, desta forma, adquire um verdadeiro instrumento de poder.

Diante desta realidade, devemos ter compromisso com a verdade, observando os conteúdos das conversas, suas origens, os cenários, seus atores,... codificando as mensagens, seus objetivos e missões. Não é fácil, mas nos ajuda a compreender melhor os nossos grupos sociais e seus comportamentos de manutenção de poder. 

Rafael Jácome

  

Nenhum comentário: